Se algum dia você leu alguma coisa ou assistiu a um vídeo sobre estrelas de nêutrons você provavelmente descobriu que estas são estrelas um tanto extremas – talvez o mais extremo que uma estrela possa ser antes de deixar de ser uma estrela.

Basicamente estrelas de nêutrons se formam quando uma estrela de alta massa chega ao “final de sua vida”, quando ela esgota sua capacidade de formar elementos mais pesados e contrabalancear a sua própria gravidade. Sem muitos detalhes, esta estrela massiva explode em supernova deixando para trás seu remanescente, a estrela de nêutrons.

Até onde sabemos, esta estrela de nêutrons pode ter duas propriedades diferentes: Pulsar ou Magnetar. Um pulsar é uma estrela de nêutrons que possui dois feixes de radiação saindo de sua superfície não alinhados com seu eixo de rotação, o quê produz um efeito de “piscar” – ou pulsar, quando a observamos daqui. Já o magnetar embora também seja uma estrela de nêutrons, não possui esses feixes de radiação, na verdade possui outra característica marcante que são os seus poderosos campos magnéticos.

Um pulsar também possui campos magnéticos poderosos, entretanto os do magnetar chegam a ser milhares de vezes mais intensos, sendo os mais extremos que conhecemos até hoje no universo.

Modelo de um pulsar. Crédito: NASA
Modelo de um magnetar. Crédito: ESO

Até então os objetos eram tratados como sendo distintos, entretanto de um tempo para cá, pouco mais de dez anos, acabaram por encontrar evidências que podem nos mostrar que, por exemplo, um magnetar pode evoluir de um pulsar ou vice-versa – foi até citado de forma descontraída que os dois tipos de estrelas de nêutron seriam “dois lados da mesma moeda”.

Os magnetares, por serem estrelas muito extremas, acabam por emitir radiação gama e erupções de raios-X com uma taxa até que recorrente. Bom, o argumento de alguns cientistas é de que esses magnetares acabam por diminuir essas emissões com o tempo até que elas vão gradualmente acabando, e então o magnetar pode acabar se transformando em um pulsar.

Outros propõem o contrário, de que o pulsar é formado primeiro, logo após a explosão em supernova e então com o tempo seu campo magnético vai ficando mais intenso, esse efeito que faz com que os surtos de raios-X comecem e o pulsar gradualmente vai se tornando um magnetar.

Agora determinar qual dos dois efeitos acontece não é fácil, segundo Tom Prince (professor de física no Caltech e pesquisador na NASA) é muito difícil de se observar essas estrelas “inquietas”. Magnetares não duram muito tempo, um ano ou alguns anos, pois todos aqueles surtos de raios-X dissipam a energia magnética da estrela, pulsares são objetos bem antigos até onde sabemos e também supernovas não acontecem assim com uma frequência tão alta, o quê torna a pesquisa mais complicada.

Prince também enfatiza que enquanto a primeira transição de um pulsar para um magnetar foi detectada por um telescópio na Terra, os dados mais interessantes vêm dos telescópios que estão em órbita. Essas observações incluem ondas sísmicas através de um magnetar, uma nuvem de partículas de alta energia chamada de nebulosa de vento (wind nebula), e também o magnetar que tem a rotação mais lenta já registrada.

Todas essas observações podem nos levar a concluir uma versão ou outra da história, por exemplo, essas nebulosas de vento são bem comuns nas redondezas de um pulsar, o mais famoso é mostrado abaixo, o pulsar da nebulosa do caranguejo.

Nebulosa do Caranguejo, originária de uma explosão em supernova. O objeto que reside no seu interior é um pulsar. Crédito: NASA, ESO
O pulsar no interior da nebulosa do caranguejo. Crédito: NASA

Por esse e outros motivos ainda não podemos ter certeza de qual versão está correta. Pode ser que as duas estejam, ou seja, ambos fenômenos de evolução teriam uma chance de acontecer, ou também pode ser que nenhum dos dois esteja correto. Só o tempo e muita pesquisa em cima do assunto poderá nos dizer.

Fonte:

https://science.nasa.gov/science-news/news-articles/two-sides-of-the-same-star

Marco Laversveiler

Graduando de Astronomia pelo Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), interessado principalmente nas áreas de Astrofísica Relativística, Estelar e de Altas Energias.

Ver Todos os Artigos

Adicionar Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *